Cigana Terena

História e lendas do Rio grande do Sul   

Cigana Terena 

A Chegada, O Funeral e O Altar dos Aflitos.

A Promessa e o Pó: O Legado de Terena

Ato I: O Alarme de Prata (Novembro de 1882)

O sol de novembro castigava o mármore e os azulejos portugueses das fachadas aristocráticas de Pelotas quando o primeiro tilintar de moedas ecoou pela antiga Rua Conde d’Eu. Não era o dinheiro discreto dos barões do charque, guardado em algibeiras de couro, mas um som vivo, metálico e impertinente.
A caravana dos ciganos húngaros Calderash entrava na cidade.
À frente do bando de quase cinquenta nômades, montado em um cavalo de pelagem escura e imponente, vinha o velho chefe João Caldaras. Mas os olhos dos pelotenses, que espreitavam por trás das cortinas de renda dos casarões, fixaram-se na mulher que cavalgava ao seu lado. Terena Caldaras. Ela trazia nos olhos o cansaço das fronteiras cruzadas e, no pescoço, pesados colares de ouro que reluziam contra a poeira da estrada. Suas saias coloridas, adornadas com moedas costuradas à mão, pareciam desafiar a sobriedade cinzenta e escravocrata daquela corte sulista.
Quando as sete grandes tendas foram erguidas no terreno da atual Rua Professor Araújo, a Pelotas rica se arrepiou. Os jornais da época não tardaram a destilar seu veneno, chamando-os de "beduínos" e associando suas fogueiras noturnas a heresias e feitiçaria. Havia medo, mas também um fascínio proibido. O povo dali não compreendia aquela liberdade que cheirava a fumo, metal fundido e vento forte. Mal sabiam eles que, sob a lona da tenda principal, o peito de Terena já arfava pesado, sufocado por uma doença pulmonar crônica que nem o melhor chá de ervas saberia curar.

Ato II: O Silêncio de Zinco e a Palavra Maldita (Março de 1883)

O outono chegou mais cedo naquele 2 de março de 1883. Diz a lenda que, quando a noite caiu e o ar faltou de vez aos pulmões da cigana, o bando buscou desesperadamente o socorro dos médicos da elite local. As portas de madeira nobre se fecharam. O preconceito e a soberba da cidade negaram o diagnóstico à estrangeira.
No leito de palha, cercada pelo pranto angustiado de seu povo, Terena expirou. A tradição oral jura que suas últimas palavras foram um sopro de justiça poética, uma sentença lançada contra as paredes caiadas da aristocracia: "Pelotas nunca mais prosperará, e as paredes dos seus belos casarões racharão e chorarão".
No dia seguinte, a cidade parou, dividida entre o horror e o assombro. O funeral da Cigana Terena foi a maior e mais luxuosa exéquia que o Cemitério São Francisco de Paula já havia testemunhado. O bando não poupou ouro para honrar sua matriarca. O caixão, forrado com zinco reluzente, transportava o corpo coberto por mantos de seda pura e bordados húngaros. Enquanto caminhavam em direção ao bairro Fragata, os ciganos queimavam resinas e incensos caríssimos, entoando o lamento melancólico do miserere. Duas bandas de música, contratadas a peso de ouro pelo viúvo João Caldaras, conduziram o cortejo sob o olhar hipnotizado de milhares de pelotenses que assistiam, em silêncio obsequioso, àquela rainha sem trono ser devolvida à terra.

Ato III: O Altar dos Aflitos (O Auge da Fé)

As décadas passaram e o tempo, implacável, encarregou-se de dar razão ao mito. Quando o ciclo do charque ruiu e os grandes casarões começaram a descascar e a rachar sob a umidade rigorosa do sul, o povo lembrou-se de Terena. Mas a cidade cometeu um erro de julgamento: o coração da cigana não guardava espaço para a vingança eterna, mas sim para a transcendência.
Hoje, quem caminha pelos corredores silenciosos do Cemitério São Francisco de Paula não encontra uma sepultura esquecida, mas o altar mais vivo da região. A barreira do preconceito religioso e cultural foi pulverizada pela necessidade humana. Terena mudou de face no imaginário popular: deixou de ser a bruxa que amaldiçoou a cidade para tornar-se a Mãe dos Desamparados.
O túmulo vive coberto por uma explosão de cores e aromas. Há lenços de seda vermelha e amarela amarrados às grades, garrafas de vinho licoroso intocadas, baralhos ciganos, perfumes caros e milhares de velas acesas que choram cera colorida dia e noite. Ali, o sincretismo é absoluto. O católico acende uma vela pelas almas; o umbandista saúda o Povo Cigano com um "Optchá!"; o desempregado deixa a cópia de um currículo; a jovem apaixonada amarra um bilhete implorando por um amor impossível.
Centenas de placas de mármore cobrem a estrutura, todas com a mesma inscrição: "Obrigado, Cigana Terena, pela graça alcançada". Em uma reviravolta poética que só a fé compreende, a cidade que um dia fechou as portas para a caravana de Terena hoje dobra os joelhos diante de seu túmulo, implorando à velha cigana a prosperidade e a cura que outrora lhe negaram.

O céu é o meu teto ,a terra minha pátria e a liberdade é minha religião 
Saúdo todos os filhos de fé 
Saúdo cigana terena


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